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21.4.08

O Marinheiro, de Fernando Pessoa



Estreou dia 17 de Abril, no Teatro Municipal de Almada, a peça “O Marinheiro”, de Fernando Pessoa. Em parceria com a Casa Fernando Pessoa, o teatro apresenta ainda obras de várias artistas plásticos inspiradas no poeta português.

A peça “O Marinheiro” foi escrita em apenas dois dias e nunca chegou a ser representada na presença do autor. Mesmo hoje, são poucas as encenações desta peça a que Fernando Pessoa subintitulou “drama estático”.

“Um quarto que é sem dúvida num castelo antigo. Do quarto vê-se que é circular. Ao centro ergue-se, sobre uma mesa, um caixão com uma donzela, de branco. Quatro tochas aos cantos.

À direita, quase em frente a quem imagina o quarto, há uma única janela, alta e estreita, dando para onde só se vê, entre dois montes longínquos, um pequeno espaço de mar.

Do lado da janela velam três donzelas. A primeira está sentada em frente à janela, de costas contra a tocha de cima da direita. As outras duas estão sentadas uma de cada lado da janela. É noite e há como que um resto vago de luar.”


No dia 18, a editora Livros de Areia, em parceria com a Companhia de Teatro de Almada, lançou a edição de “O Marinheiro”. A apresentação do livro realizou-se na Casa Fernando Pessoa e contou com as presenças de Teresa Rita Lopes, especialista na obra de Fernando Pessoa, de Alain Ollivier, encenador da peça e de Pedro Marques, em representação da Livros de Areia Editores.

Teresa Rita Lopes, especialista na obra de Fernando Pessoa

“O Marinheiro tem-me ocupado a vida toda”, declarou aos presentes Teresa Rita Lopes, fazendo de seguida uma apresentação desta obra de Pessoa.

“Um texto tão pequeno… Cada vez que o leio descubro qualquer coisa nova. Por isso, quando aceitei estar aqui para falar de “O Marinheiro”, li-o outra vez com todo o cuidado, acabando por achar coisas novas. Apraz-me falar sobre ele.

Dedico este fascínio pela peça à minha amiga Teresa Mota, com quem em 1961 encenei a peça Três Fósforos, com Amélia Rey Colaço. Foi censurada pela PIDE e, talvez tenha sido por isso, que fugi para Paris. Esta nova abordagem dedico-a à minha amiga.

Não gosto de abordar Pessoa de uma forma esotérica. Toda a minha vida me tenho recusado a enveredar por isso. Ele (Fernando Pessoa) nunca foi ortodoxo nas suas crenças e essas pessoas que o usam para provar as suas crenças irritam-me”.

- Circunstância da peça -

Referindo-se à circunstância desta peça, a especialista esclareceu que foi escrita nos dias 12 e 13 de Outubro de 1913. Tem a ver com a propensão de Fernando Pessoa para o oculto, que o levou a experiências de escrita automática e de “mesa de pé de galo”.

“Sempre pensei em não ir por aí. Qualquer obra dedicada a uma crença fica inevitavelmente datada.

Os simbolistas abriram caminhos. No final do século XIX denunciaram o impasse do teatro. Os simbolistas de língua francesa sonharam o teatro do futuro. O Fernando Pessoa estava a par disto. Maeterlinck recusava todo o teatro naturalista que se fazia na altura. Em 1913, Pessoa comparou-se com Maeterlinck e disse que iria fazer muito melhor.

O verdadeiro teatro descobriu-o em 1914 com a explosão dos heterónimos. O teatro que lhe interessava era o herdeiro do teatro simbolista, recusando os artifícios até aí usados. Inspirado em Hamlet, ele imaginou os heterónimos. São um monólogo prolongado e analítico, imagem de uma personagem de Shakespeare, monologado, sempre só.

Mas o teatro tem de ter acção, embora não um conflito, como o naturalista. O teatro como os simbolistas o entreviram. Isto tem a ver com a atracção de Pessoa pelo outro. O que é interessante é que exista em O Marinheiro uma mise-en-scène espiritual”.

- Lugar desta obra na obra pessoana –

Passando ao lugar que esta peça ocupa na obra pessoana, Teresa Rita Lopes confessou que não é fácil falar de Pessoa sem que nos percamos. “O Marinheiro e Fernando Pessoa são uma “floresta antagónica”, perdemo-nos nos trilhos quando falamos deles.

Esta foi uma obra que Fernando Pessoa adoptou durante a vida toda. Escreveu ao João Gaspar Simões, em 1930, a dizer que ainda estava a ser objecto de correcções. O minimalismo é uma coisa que agrada em Pessoa. Tudo está reduzido ao essencial, corta todos os floreados.

Será que Fernando Pessoa ganhou a aposta que fez com Maeterlinck? Comparei esta peça com “Les Aveugles” e constatei que O Marinheiro responde melhor aos preceitos dos simbolistas. Uma palavra-chave dos simbolistas é o “distanciamento”. Distanciamento da realidade. Distanciamento que as personagens, as veladoras, vão procurar durante todo o tempo.

A ideia central da peça é fugir à realidade, que faz com que as personagens pareçam fantasmas ou sonâmbulos. A noção do espaço, do tempo e da linguagem não tem nada a ver com as personagens normais. Maeterlinck não foi tão longe. “Um quarto que é sem dúvida num castelo antigo” põe-nos logo em dúvida. Pode ser ali como pode ser noutro sítio qualquer.

Fernando Pessoa conseguiu evitar uma coisa que o Maeterlinck não conseguiu evitar, a alegoria. Pessoa nunca faz isto. Este quarto circular é fora do espaço e do tempo – “ainda não deu hora nenhuma” - percebemos logo que não estamos no mundo dos vivos. Distanciamo-nos da acção o mais possível. As veladoras são todas a mesma, não se distinguem. Ali não há conflito. Elas ajudam-se, são solidárias em fugir à vida, no criar o sonho.

Além do “drama estático”, Fernando Pessoa pôs-lhe outro título – teatro de êxtase – essa tal ascese que encontramos também em “Salomé” (“O Marinheiro”, “Diálogo No Jardim do Palácio” e “Salomé” foram todas obras escritas por Pessoa em 1913). Elas, as veladoras, agem para fugir à vida, para criar um sonho. Há uma que se destaca, que é a que conta a história do marinheiro. Há uma luta entre essa necessidade, essa proposta que fazem umas às outras de fugir à vida – “Não rocemos pela vida nem a orla das nossas vestes...” – ganham asas e nas asas do sonho elas levitam.

A oposição é entre a vida e o sonho. Existe a vida, porque esta vida equivale à morte. Álvaro de Campos (um dos heterónimos de Pessoa) diz que temos duas vidas – a verdadeira, que sonhamos em criança, e a falsa, a prática. Morre-se, porque não se sonha bastante. Elas fogem da vida, como quem foge da morte. Viver esta vida ao rés-do-chão equivale a morrer. Por outro lado, elas querem esta vida. “Na vida aquece ser pequeno” – o que assistimos ao longo da peça é a hesitação entre querer fugir da vida e um ritual (toda a peça é um ritual, um acto mágico) em que, através do sonho, elas querem voltar ao Eu Primordial, ao Ser Lar. Ser Lar é Deus. Fernando Pessoa é completamente heterodoxo nas suas crenças – “Creio ou quase creio”. Isto faz com que nunca tenha sido um fanático.

Numa dada altura da peça elas dizem “Tenho um medo disforme de que Deus tivesse proibido o meu sonho...” e falam do frio, esse frio que chega dessas tais regiões isoladas e, por isso, querem o conforto da vida. Este sonho das veladoras é muito complexo. Por um lado, conseguem levantar voo nas asas do sonho, sonhando o seu passado, um sonho divinatório. Trata-se de um perfeito fenómeno de regressão (Pessoa escreveu “não há comunicação directa com Deus, Ser Lar”), em que elas tentam cumprir as etapas que levam ao encontro de si próprias. Mas se permite esta regressão, por outro lado, projecta-nos para o futuro, porque é criador. Depois de sonharem colectivamente o marinheiro descobrem o seu poder – “Por que não será a única coisa real nisto tudo o marinheiro, e nós e tudo isto aqui apenas um
sonho dele?...”
. Elas criam o marinheiro e ele cria outra terra natal.

Esta hesitação entre Céu e Terra é a única acção da peça. Opõe-se à criação das ruas da terra natal do marinheiro, que se assemelha à génese bíblica – “Ao princípio ele criou as paisagens, depois criou as cidades; criou depois as ruas e as travessas, uma a uma, cinzelando-as na matéria da sua alma”. Às vezes chegamos a ter a sensação que as veladoras são médiuns – “Que voz é essa com que falais?... É de outra... Vem de uma espécie de longe...".

No final as perguntas que se colocam são: “Quem é, afinal, o marinheiro” e “O que é a morte?”. O marinheiro talvez seja o próprio Fernando Pessoa. Ele tinha um grande patriotismo em relação à beleza da língua portuguesa. Assim, a verdadeira pátria do marinheiro é a Língua Portuguesa.

A morte é algo que está presente em toda a peça. Sem a consciência da morte não há peça. O tempo é a morte, como pode ser entendido nas palavras de uma das veladoras - “…Velamos as horas que passam…”.

Alain Ollivier, encenador da peça

Na sua intervenção Alain Ollivier esclareceu que para falar sobre o seu interesse pelo “Marinheiro” é necessário dizer que não foi o primeiro a montar esta peça.

“Hoje, Fernando Pessoa tem uma reputação internacional. Fiquei muito impressionado com a sua natureza explosiva. Faço um paralelismo com o teatro simbolista francês. Este tipo de teatro surgiu na última década no século XIX (Maurice Maeterlinck). Existiam peças de teatro super-realistas e medíocres. O teatro simbolista surgiu neste contexto. Pode fazer-se uma correlação entre o teatro simbolista e o teatro de Fernando Pessoa, com pequenos tormentos, com um realismo depressivo. É muito político.

O Marinheiro fala de inspiração poética. Permite conhecer de onde vem a inspiração de Fernando Pessoa, que com 24 anos escreveu esta peça em dois dias. Mostra-nos a sua intuição, a sua visão daquilo que viria a ser a sua vida de artista, de tormento e de sofrimento.

No final agradeceu ao director da Companhia de Teatro de Almada. “Não poderia recusar o convite de Joaquim Benite, porque também achei interessante a encenação, a compreensão do que é a encenação. Escrever uma peça não é explorar uma situação, uma vivência… Não é só fazer um diálogo. É necessário um imaginário animado por um pensamento, uma ideologia, um pensamento analítico, um pensamento que tenha forma.”

Pedro Marques, Livros de Areia Editores

Pedro Marques agradeceu à Companhia de Teatro de Almada a lembrança de ter contactado a sua editora há cerca de dois anos. “Não é um projecto inovador. Outras companhias já nos convidaram para editar teatro. Isto é ir contra-corrente. Não é um trabalho que faça como especialista. Não sou especialista em textos dramáticos, mas trata-se de uma companhia muito sólida, que escolhe textos muito bons. Desde esse contacto que já editámos sete a oito livros. São textos muito interessantes".

Alain Ollivier foi director do Théâthre Gérard Phillipe de Saint-Denis e apresentou, em 2006, na Sala Experimental do TMA a sua encenação de “O Marinheiro”, protagonizado pela actriz francesa Anne Alvaro. Deste espectáculo surgiu o convite para Allain Ollivier voltar a dirigir o “drama estático” de Fernando Pessoa, numa produção da Companhia de Teatro de Almada, com um elenco de três actrizes portugueses, protagonizado por Teresa Gafeira.

Em cena No TMA, até 18 de Maio, a peça “O Marinheiro”, de Fernando Pessoa.

Companhia de Teatro de Alamada
Livros de Areia Editores

14.3.08

É a Cultura, Estúpido!


Notícia e fotografia de Inês Branco

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É a Cultura Estúpido!, na Europa de Leste

"É a Cultura, Estúpido!" foi o nome escolhido para a série de tertúlias que se realiza no teatro São Luiz até Abril. Na última sessão, o debate foi dedicado à Europa de Leste. Moderados pelo jornalista Daniel Oliveira, Konstantin Yakolev, director do jornal "Slovo" com edição em Portugal, Branko Neskov, engenheiro de som, e Nina Guerra, tradutora de literatura russa, discutiram as facilidades e dificuldades de trabalhar na área da cultura em Portugal e reflectiram sobre a realidade dos imigrantes de Leste em Lisboa.

Afinal, que realidade é esta que permite a existência de tantos jornais e rádios falados em russo? Quem responde é Konstantin Yakolev, fazendo uma comparação com Itália. Só na zona de Milão, existe uma comunidade de um milhão de pessoas oriundas de Leste e, nem por isso, o sucesso da implementação de jornais de língua russa foi maior que em Portugal. "Este facto" explica, "deve-se à grande concentração de eslavos nas grandes cidades, como Lisboa. Vivem juntos e trabalham juntos". Quando o seu jornal surgiu, em 2001, veio colmatar a necessidade que estas pessoas tinham de ler em russo, "estes imigrantes tinham fome da palavra russa", afirma.

Mas será que existe mesmo uma comunidade? Nina Guerra desconfia, "uma comunidade implica muita coisa, ajuda financeira, por exemplo. Não sei se existe. Mas, se existir, fico feliz". Nina pertence à "comunidade antiga". Chegou a Portugal em 1990. Nessa época eram sobretudo mulheres casadas com portugueses que chegavam ao nosso país. "Foi o meu caso. Não vim na onda da desgraça". Eram poucos e vinham por razões familiares. Mas, no fim dos anos 90, a situação começou a alterar-se com a chegada de novas vagas de imigração.

Hoje, apesar da existência de muitos russos e ucranianos, as iniciativas culturais realizadas por estes imigrantes para os portugueses não são muitas. "Praticam a cultura as pessoas que têm lazer e tempo livre", esclarece a tradutora. Não parece ser este o caso dos seus conterrâneos, para quem a vida, segundo Nina, é tudo menos fácil. "A imigração não permite dispor de si. Exprimir os seus gostos. É luta pela sobrevivência de cada dia". Mesmo sendo casada com um português, viveu os três primeiros anos em situação ilegal, "eu passei um bocado até me endireitar", confessa.

A conjuntura económica do país também não parece ajudar, "os imigrantes têm sempre mais dificuldades que os nacionais, mas se a situação do país é má, a situação daqueles ainda se torna mais difícil". Ter de lidar com a burocracia de dois países é outro dos problemas, "quando se chega a casa e só se tem vontade de dormir, enquanto a preocupação é com a papelada, então não há força e perde-se o hábito de procurar a cultura". Com todos os defeitos da União Soviética, diz-nos Nina, havia o gosto pela leitura e pela cultura. Embora considere o trabalho das associações e da imprensa importante, "ainda é preciso dar mais facilidades aos imigrantes".

Branko Neskov não partilha desta visão tão negra. Vê a situação de outro ângulo, "deixar o nosso país é bastante mau, mas quando se encontra outro local para viver, já é um pouco melhor". No entanto, para ele, Portugal não está preparado para receber. "Em 90, 92 éramos raros e, como qualquer coisa rara, fomos tratados com carinho, mas agora é diferente, com as grandes vagas de imigração". Quanto à existência de uma comunidade, o seu sentimento é de que de facto existe, " temos já uma ideia muito clara de perfis de imigrantes. A própria existência de um jornal implica ter de existir uma comunidade que o lê".

Este sérvio, engenheiro de som, chegou a Portugal também no início dos anos 90, deixando para trás um país (Jugoslávia) desfeito em muitos outros países. "Fui impedido de trabalhar. Precisava de passaporte para viajar dentro do meu antigo país". A Alemanha foi a sua primeira opção, mas a frieza do clima e das gentes, fizeram-no escolher Portugal, "depois de toda aquela confusão, só queria um local mais calmo". Veio encontrar essa calma aqui, mas não só. Encontrou também a oportunidade que lhe permitiu permanecer. "O cinema que se fazia em Portugal na época era uma actividade artesanal, exercida num circuito muito fechado, em que os amigos se ajudavam". Não foi pois difícil descobrir lacunas "não existiam estruturas de pós-produção, o que me permitiu participar na sua criação".

Quanto ao cinema português, mantém características que o distinguem do sérvio. "Em Portugal o cinema descreve um estado de espírito. Na Sérvia tenta descrever uma história". Do cinema sérvio pensa que se conhece pouco em Portugal. "Está limitado a Kusturica". Apesar daquilo que o fez deixar a Sérvia, continua a manter o contacto, "faço um ou dois filmes por ano. A este nível a amizade não foi quebrada".

Mas não só ele mantém o contacto com a sua cidade natal. Nina deixou uma Moscovo em que, depois de Gorbachev, "parecia que tudo era liberdade", para voltar só passados dez anos. "Parecia-me outro país. Muita coisa tinha mudado. No meu tempo procurava-se literatura de qualidade. Os livrinhos baratos para aprender inglês deitavam-se fora". Chegou a pensar que a literatura de massas iria destruir a cultura adquirida ao longo de gerações. Hoje, não só se voltou a ler literatura de qualidade, como noutras áreas culturais o panorama é também animador "os teatros e cinemas de Moscovo e São Petersburgo estão cheios! Há muita produção de coisas novas. Às vezes é difícil, mas a cultura continua".

Se o dinamismo cultural nas duas maiores cidades russas, que chega a contrastar com o que se passa no resto do seu país, a admira, ainda assim lhes levava o exemplo português no que respeita ao teatro. Considera que o há de melhor em Portugal está no teatro Meridional, Cornucópia e Artistas Unidos e, se pudesse oferecer algo de concreto, mostrava as encenações que Luís Miguel Cintra faz dos autores russos. Quanto a estes mesmos, embora os clássicos sejam os mais traduzidos, devido sobretudo a que já não exigem o pagamento de direitos de autores, há muitos novos a surgir, mas que ainda não são conhecidos por cá. "É difícil fazer com que as pessoas comprem livros de autores desconhecidos". Ainda assim, deixa-nos a sugestão "Ivan Búnin é muito bom!".

Esta tertúlia inseriu-se no Ciclo Outras Lisboa, por ocasião do Ano Europeu do Diálogo Intercultural, a decorrer no São Luís Teatro Municipal até 28 de Abril.

5.3.08

Lançamento do Ano Europeu do Diálogo Intercultural (AEDI 2008)


Fotografia e notícia de Inês Branco

Foi oficialmente lançado em Portugal, no dia 27 de Fevereiro, o Ano Europeu do Diálogo Intercultural (AEDI 2008). O evento de abertura realizou-se no Museu de Etnologia, em Lisboa, e contou com a presença da Alta Comissária para a Imigração e Diálogo Intercultural, Rosário Farmhouse, do Ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, e do Ministro da Presidência, Pedro Silva Pereira.

A Alta Comissária fez um enquadramento do ano, focando os objectivos, a estratégia e o programa nacional. Rosário Farmhouse forneceu uma visão do contexto actual de Portugal: “com uma longa história de país de emigrantes, um terço da população de origem portuguesa vive emigrada e espalhada pelo mundo e, no final do séc. XX tornou-se também país de acolhimento de imigrantes. Hoje, populações de diferentes nacionalidades constituem já 4,2% da população residente em Portugal”, explicando que este mesmo contexto “exige da sociedade portuguesa o desenvolvimento de uma política de acolhimento e integração de imigrantes mais consistente, acompanhada pela consolidação de políticas de acolhimento e integração, que se reflictam quer em princípios políticos gerais, quer em iniciativas legislativas, quer ainda em respostas operacionais muito concretas”.

No final da sua intervenção lançou o repto a todos os presentes para que “festejemos juntos a nossa diversidade” e relembrou a célebre frase de Fernando Pessoa que serve de “slogan” português ao AEDI 2008, “ser plural como o universo”.

O Ministro da Cultura salientou a importância da língua no diálogo entre culturas, “cultura é identidade e, sobretudo, língua. É através dela que contactamos com o outro e que definimos a forma como pensamos. Somos portugueses falantes e, por isso, temos uma identidade própria”. Acrescentando ao vector “língua”, o vector “identidade”, e a necessidade de nos abrirmos ao outro através das artes, Pinto Ribeiro, manifestou o seu desejo: “gostava de apoiar e estimular todas as formas de arte. O que desejo é que todas as associações, organizações e pessoas contribuam para estes três veículos e, assim, para este diálogo intercultural”.

A fechar o lançamento, Pedro Silva Pereira marcou o desafio da paz como central no mundo de hoje “não é um desafio qualquer e está inteiramente ligado ao diálogo intercultural”. Não só para a Europa como um todo, mas para Portugal “é um desafio que nos tornemos numa multiplicação de sociedades de acolhimento, sobretudo, se quisermos que sejam suficientemente justas, coesas e tolerantes”. Não obstante o facto de o desafio do diálogo intercultural não ser apenas o de integração de imigrantes, o Ministro da Presidência afirmou que “passa muito por aí”. De tal forma, que foi inscrito na própria sigla do ACIDI o Diálogo Intercultural, que simboliza a “valorização da tolerância, da diversidade religiosa e do combate à discriminação, racismo e xenofobia”. Apesar de vivermos hoje num clima de paz social “é necessário vigilância e intervenção junto das consciências e dos valores da nossa sociedade, para não deixar irromper o racismo e a xenofobia”, sublinhou.

Este dia serviu também para dar a conhecer o sítio do AEDI 2008 (www.aedi2008), onde poderá ser encontrada a agenda para o ano e onde todos os cidadãos poderão entrar em contacto com a organização (aedi@acidi.gov.pt).

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11.2.08

Mia Couto - Sessão de Autógrafos


Foto e texto de Inês Branco

Mia Couto realizou hoje uma sessão de autógrafos na livraria Byblos em Lisboa.

Tal como foi apresentado, este “autor fundamental da língua portuguesa, em cujas mãos está criada e recriada de forma inimitável” concedeu aos seus leitores, e não só, a oportunidade de o conhecerem melhor, autografando a sua obra e confraternizando.

Referindo-se ao diálogo entre culturas, o escritor moçambicano disse acreditar que é não só estar disponível para que as culturas dialoguem, mas, sobretudo, para que se mesticem. “Não há culturas puras. A própria cultura portuguesa já é resultado de um conjunto de cruzamentos de culturas: árabe, africana e outras”.

Para Mia Couto o seu hobby é o seu trabalho. “Sou biólogo, mas ao fazer biologia estou muito próximo da escrita. Vejo o Mundo pelos olhos de uma criança. Quero deixar-me encantar pelo meu trabalho”.

Mia Couto nasceu na Beira, Moçambique, em 1955 e, além de ser escritor, sua faceta mais conhecida, é professor e biólogo. A sua vasta obra, que vai desde o conto, à crónica e da qual fazem parte títulos como “Vozes Anoitecidas”, “Terra Sonâmbula” e “Estórias Abensonhadas” foi galardoada, em 1999, com o Prémio Vergílio Ferreira.

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Padre António Vieira: os mesmos desafios quatro séculos depois






Foto e texto de Inês Branco

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13.9.07

Conferências "A Busca da Felicidade" na Culturgest

Felicidade na Economia

No final de Maio, aconteceram, na Culturgest, as conferências sobre a Felicidade. Fui assistir a uma. O tema, à partida, não prometia muito, mas acabou por ser muito interessante: “Felicidade na Economia”.
O objectivo era explicar a ideia de felicidade na teoria dos modelos económicos e no mundo empresarial. Esquisito… A economia é uma ciência de números e a felicidade é subjectiva. Então, como é que a afectividade e a felicidade se cruzam com o pensamento económico?


O mote começou por ser: “Se tivesse apenas mais dez minutos de vida, o que faria?”.

A resposta foi: “Ia para casa ver os meus filhos”. Bom, eu não, que não tenho. Mas era o que o professor Luís Santos Pinto, da Universidade Nova de Lisboa, faria. Ter um filho é uma motivação genética, no entanto, pode ser uma má experiência. Há bebés que choram muito, que não nos deixam dormir… Será que quero ter um filho? Será que quererei ter dois filhos? Nesta decisão pesam componentes afectivas, mas também económicas. Afecto pode não faltar, dinheiro para um poderei ter, mas para o segundo… É aqui que entra a economia. Da componente económica faz parte o rendimento e este dá para prever.

Mas o que é a felicidade?

Considerando que a felicidade é “bem-estar”, a ela está inerente subjectividade, pois países diferentes terão critérios diferentes. É por ser um conceito subjectivo, que, para a Economia, é difícil medi-la. Apesar disto, é possível partir de medidas individuais para um todo e encontrar métodos que permitam medi-la e construir rankings comparativos entre países. Os dois rankings mencionados foram o World Values Survey e o Eurobarómetro. Segundo este último, Portugal tem 17 por cento de pessoas muito felizes, abaixo da média da União Europeia, 26 por cento. A Dinamarca vem no topo, com 49 por cento.

E será que a felicidade se compra?

Contra todas as expectativas, empiricamente os dados indicam que sim. Num dado país as pessoas mais ricas são as mais felizes, porque o rendimento é importante. Afinal, até não parece estranho e é até consistente com a teoria económica mais básica. Fazemos escolhas com uma restrição económica orçamental. Portanto, quanto mais elevado for o nosso rendimento, mais escolhas poderemos fazer!
Mas será que este acréscimo de felicidade é sempre proporcional ao acréscimo de rendimento? Não. O incremento é cada vez menor. Se na compra do primeiro Porsche (!!) ficamos felicíssimos, na compra do terceiro, a felicidade já não é tão grande. Daqui resulta que faz sentido cobrar mais impostos às pessoas mais ricas.

Será mesmo verdade que é o aumento do rendimento que provoca um aumento de felicidade? Não será que é a felicidade que faz aumentar a produtividade e que um aumento na produtividade provoca um aumento no rendimento?
Não. Provou-se que a causalidade vai do rendimento para a felicidade. Claro que o inverso poderá ser verdadeiro em alguns casos, mas normalmente é um acréscimo no rendimento que provoca um “incremento de felicidade”.

Quer dizer que o dinheiro é aquilo que nos torna felizes?

Felizmente, não! Existem sete factores principais que nos tornam felizes e cuja ordem varia consoante o país e cada uma das pessoas. A ordem genérica para os países ricos é esta:
1.º Relações familiares.
2.º Rendimento.
3.º Trabalho.
4.º Comunidade e amigos.
5.º Saúde.
6.º Liberdade pessoal. Aqui verificou-se que a qualidade do governo conta muito. Um exemplo flagrante é o caso da Rússia, que no ranking surge como país altamente infeliz.
7.º Prática de religião, ligação ao transcendente, meditação.
Depois, existem para além destes, outros factores como comer, fazer exercício, fazer sexo, relaxar, …
Outro aspecto interessante é verificar-se que, ao longo da história, os níveis de felicidade também podem ser medidos. Em 1820, 80 por cento da população vivia com menos de um dólar (comparado ao valor de hoje); na Idade Média, vivia-se para sobreviver; e hoje somos mais felizes, embora os níveis de felicidade estejam “flat” desde os anos 50.

Por que é que somos mais ricos, mas não somos mais felizes?

Várias teorias têm sido apresentadas para explicar este fenómeno:
1.º Artifício estatístico
Quando medimos o rendimento per capita, ele pode ir até valores incalculáveis, mas a escala da felicidade é limitada. Vai de zero a quatro. Se calhar, era necessária uma escala maior e simétrica.

2.º Teoria do Setpoint
Cada indivíduo tem um nível predeterminado de felicidade, que é determinado geneticamente. O fundamento está, por exemplo, em pessoas que ganharam a lotaria ou em pessoas deficientes, que não ficaram estupidamente mais felizes, nem estupidamente mais infelizes. No entanto, esta teoria é discutível, porque as pessoas não se conseguem adaptar completamente.

3.º Teoria da Habituação
Todos aspiramos a ter certas coisas. Apesar de ficarmos mais ricos, as nossas aspirações também são maiores. Esta teoria também é criticável, porque parte do princípio de que as nossas preferências não são estáveis.

4.º Teoria dos “bens de status”.
Esta teoria, também conhecida pela do “relative income”, diz que nós nos comparamos com os outros. Temos inveja das pessoas mais acima de nós. E, diz-nos também, que somos um bocado cínicos. Quando estamos em baixo, preocupamo-nos com a igualdade, queremos políticas sociais, mas quando estamos em cima, já não nos importamos tanto. Entramos numa “escalada competitiva”. Se o meu vizinho tem um BMW, eu também tenho de ter, se ele compra depois um Porsche, eu também vou ter de ter um, … Mais uma vez, esta teoria, como quase todas, é criticável, porque dois terços do peso vai para o rendimento absoluto. A partir daí é difícil dizer o que é um bem de status. Será que a casa é? Depende.

5.º Teoria do Capital Social
Também conhecida por “bowling alone” (Robert Putnam – RP), diz-nos que estamos a tornar-nos mais individualistas e menos sociáveis. Temos mais rendimento, logo podemos ter mais saúde, logo somos mais felizes. No entanto, temos um capital social menor, logo os dois factores anulam-se e não nos tornamos mais felizes. A crítica a esta teoria está em saber o que é o capital social. O RP não deu uma boa definição, porque não levou em conta o facto de o tipo de comunicação ter mudado. Hoje utilizamos mais o telemóvel, mais a internet. Mas será que isto nos torna mais infelizes? Realmente, há fenómenos que nos criaram mais stress, por exemplo, o querermos estar melhor que os outros. John Nash, na sua Teoria dos Jogos, mostrou-nos que, em muitas situações, podem haver vários equilíbrios e que podemos cair num equilíbrio menos bom.

Por exemplo, na Holanda, para criar um melhor equilíbrio, os sindicatos negociaram empregos em part-time, para haver mais pessoas a sair às 4h30m e assim dedicarem mais tempo à sua vida social.
Será que estamos a ser irracionais ao ficar em casa, não socializando e, por isso, sendo mais infelizes? Não. Simplesmente fazemos as escolhas com base naquilo que conhecemos da sociedade. É mais difícil encontrar grupos, porque é mais fácil ficar em casa, logo ficando em casa, não se formam grupos e, por isso, somos menos motivados a sair de casa.

Será que os governos e os economistas deverão passar a utilizar a felicidade para medir os níveis de satisfação de um país, em vez do PIB?

É preciso ter em consideração três coisas:
1.º Os economistas analisam o PIB real e não o nominal;
2.º Os economistas analisam o PIB per capita;
3.º A longo prazo não consumimos mais do que o que produzimos.

É verdade que o PIB é uma medida com grandes problemas. Tudo o que não passa pelo mercado não é contabilizado pelo PIB. Se fizermos um belo jantar em casa, não passa. Mas, se contratarmos uma empregada para o fazer, passa. Qual nos faz mais felizes? Um idoso num lar passa pelo PIB, podendo associar-se maior felicidade a um lar mais caro, mas se estiver em casa com a família, não passa. Onde é que ele é mais feliz? Portanto, o PIB está enviesado quanto às interacções sociais. Por outro lado, o PIB não leva em conta a degradação ambiental e, por ser uma média, não leva em conta a distribuição do rendimento.

Então porquê continuar a utilizar o PIB?

Porque é uma medida objectiva. Na felicidade não há comparações objectivas possíveis, porque cada país valoriza coisas diferentes e, assim, teriam de ser criados rankings diferentes consoante os países. Por exemplo, parece que os europeus têm mais tempo livre e valorizam-no mais e são mais avessos à desigualdade. Já os americanos não valorizam tanto isto. Quem é mais feliz?
O PIB pode ser abandonado, mas têm de ser avaliadas outras medidas.

O “Economist” pegou em sete factores de qualidade de vida, mensuráveis, e com eles criou um ranking, o “World Quality of Life”.
1.º Liberdade Política (?): 26.2%
2.º Saúde (esperança de vida à nascença): 19%
3.º Bem-estar material (PIB per capita): 18.8%
4.º Vida em comunidade (taxas de ida à igreja e de participação em encontros): 12.2%
5.º Relações familiares (taxas de divórcio): 11.3%
6.º Segurança no trabalho (taxa de desemprego): 7.7%
7.º Igualdade dos sexos (rácio de rendimentos f vs m): 4.8%

Portugal encontra-se no 19º lugar em qualidade de vida (WQL) e em 31º no PIB.
Por exemplo, a Rússia encontra-se no 105º em WQL e em 55º no PIB.
Os Estados Unidos estão no 13º em WQL e em 2º no PIB.

No ranking do PIB per capita dos países mais ricos estamos abaixo dos vinte primeiros, sendo a nossa posição, em 2005, a 31ª; em 1990, no World Ranking of Hapiness, estávamos em 35º; e, em 2005, no World Ranking of Quality of Life estávamos, como já disse, em 19º.

Conclusão: Não somos muito felizes, não somos muito ricos, mas temos uma grande qualidade de vida.

27.8.07

Ricardo Quaresma - Perfil de um Mágico



“Mustang”, “Harry Potter” ou Ricardo Quaresma, qualquer um dos nomes serve para identificar este “jogador da bola”, que com apenas 23 anos já fez história no futebol português.

Começou no Sporting Clube de Portugal, onde se estreou na equipa principal com dezoito anos. Estávamos na época 2001/2002 e Laslo Boloni era então o treinador. Foi ele que baptizou Ricardo Quaresma com um nome que reflectia a raça e a rebeldia do jogador, “Mustang”. De simples rebelde a cavalo de raça, a história fez-se no entretanto e começou antes, bem antes, quando ainda andava na Escola Domingos Sávio. António Silva, o primeiro treinador diz que "só queria a bola para ele." Foi depois contratado pelo Sporting, após um “olheiro” o ver a fazer o tipo de passes que, ainda hoje, são a sua imagem de marca. Mais tarde fez sensação na selecção sub-16, a qual ganhou, em 2000, o Europeu em Israel. Mais uma vez houve alguém nas bancadas que o viu e o contratou. Desta vez, para fazer a pré-época no Sporting.

Em 2003, o Barcelona viria a pagar seis milhões de euros pela sua transferência. Mas a vida não lhe correu bem pelas terras da Catalunha. Em Maio desse mesmo ano, após 22 jogos, onze dos quais como titular, conflitos com o treinador e uma lesão no pé obrigaram-no a parar durante dois meses e foi então que resolveu voltar a Portugal, sem cumprir o contrato de quatro anos em Espanha.

Em terras lusas, juntou-se ao Futebol Clube do Porto, onde joga actualmente com a camisola sete, na posição de extremo direito. Quando entra em jogo, benze-se, e dentro do campo destaca-se pelo seu remate fortíssimo e pela "trivela", um cruzamento com a parte de fora do pé direito.

De si próprio, diz ser alegre, simpático e orgulhoso. Com ascendência cigana, um dos valores que preserva da sua tradição cultural é a dedicação à família. No entanto, após o divórcio dos pais, Ricardo ficou a viver com a mãe, não tendo sido educado dentro da cultura cigana.O irmão é uma das pessoas mais importantes na sua vida. Alfredo foi uma esperança no Sporting, mas nunca chegou a ser uma certeza. Foi ele que impediu Ricardo de deixar o futebol para se dedicar ao hóquei em patins. Na altura tinha dez ou onze anos e praticava no CACO de Campo de Ourique.

Para os críticos, Ricardo é um jogador irregular. Mas será isto mau? Miguel Sousa Tavares, conhecido pela sua devoção ao clube azul e branco diz “pois eu tenho a tese contrária: há grandes jogadores que valem pela sua regularidade e há grandes jogadores, que vivem da inspiração repentina e que, necessariamente, são irregulares”.

João Bonzinho, outro crítico, compara-o a Cristiano Ronaldo. “Cristiano Ronaldo é bem capaz de ser o melhor jogador do mundo neste momento, mas Quaresma é mais «selvagem», mais «puro» enquanto génio. Cristiano é um jogador completo, arrebatador, demolidor; Quaresma é um mágico, um daqueles jogadores capazes ainda de inventar truques com uma bola, de fazerem o impensável de, na subtileza de um simples toque, mudarem o vento do jogo.”

Basta fazer uma busca na internet, para se perceber a sua fama. O seu nome aparece referenciado 56 mil vezes só em páginas portuguesas. Luís Figo, por exemplo, aparece apenas 54 mil vezes. Tem vários blogues e páginas não oficiais criadas pelos fãs e, visitando-as, repara-se que é apreciado por adeptos do seu clube, mas não só…

18.8.07

Gastronomia Molecular - Reportagem



Gastronomia ou Experiência Científica

Muito daquilo que fazemos ao preparar um prato pode ser descodificado pela ciência, tendo por base a composição dos alimentos e as alterações físicas e químicas que ocorrem durante a sua preparação. Quando a Física e a Química deixam o laboratório e entram na cozinha, o que acontece?


Numa das salas do Instituto Superior de Agronomia (ISA) o curso vai começar. Este já é o terceiro dia em que se repete. Os dois primeiros esgotaram. Aqui vão ser abordadas questões da gastronomia do ponto de vista científico, onde as moléculas são o centro das atenções. Estamos num curso de Gastronomia Molecular.

Antes de começar, faz-se a apresentação dos professores. São um grupo que se encontrou em 2001 no projecto “A Cozinha é um Laboratório”, da agência Ciência Viva, uma unidade do Ministério da Ciência e da Tecnologia, que visa a promoção da cultura científica e tecnológica junto da população portuguesa. Na altura, o objectivo era divulgar a ciência de uma forma “saborosa”. As suas formações são diversas. Paulina Mata, Margarida Guerreiro, Catarina Prisca e Conceição Loureiro-Dias têm formação em química e engenharia química. Joana Moura é arquitecta paisagista e bolseira do ISA na área de Gastronomia Molecular. O grupo deu-se bem e, hoje, continua junto, partilhando o interesse pelas bases científicas da cozinha.

Do outro lado, a assistir ao curso, também estão pessoas de diferentes áreas. O chefe de cozinha e a pasteleira do Casino de Lisboa, o sub-chefe de cozinha do hotel Cascais Mirage e o chefe de cozinha do Hotel Avis marcam presença, tendo como objectivo comum o aprofundar de conhecimentos nesta área para aplicação no seu dia-a-dia.

A aula inicia-se e a questão impõe-se: porquê molecular? No entanto, a resposta é simples: “Todos os alimentos são constituídos por átomos que se ligam formando moléculas. Quem cozinha manipula o movimento das moléculas, as suas ligações e alterações e a quantidade e o processo de transferência de calor”, esclarece Margarida Guerreiro, procurando desmistificar esta nomenclatura e outros dos “medos” de quem contacta pela primeira vez com esta ciência, a utilização de químicos. Qual o elemento essencial na cozinha? “A água. A água é um mundo. Somos nós. A par do cloreto de sódio é o reagente mais simples”. Afinal a água é um composto químico, duas moléculas de hidrogénio e uma de oxigénio. Utilizamo-la todos os dias. Se pretendermos grandes e rápidas alterações químicas, basta subir a temperatura para aumentar o movimento das moléculas. É esta a explicação por trás de um acto quotidiano tantas vezes repetido: se queremos que o leite aqueça mais rápido, basta rodar o botão do fogão.

Da teoria passa-se à prática. Estamos agora num dos laboratórios do instituto. Em cima das bancadas vêem-se desde varinhas mágicas e batedeiras, a tubos de ensaio e pipetas. Joana Moura apresenta o alginato, o xantano e o gluco. Não passam de pós. Começa-se por fazer uma solução de alginato com chá. Sob o olhar atento dos chefes de cozinha, explica “Fica com ar. Tem de se esperar duas horas. Ou colocar numa máquina de vácuo”. Passa-se à metilcelulose: “Só se dissolve a frio, mas só dispersa a quente. No entanto, se aplicarmos força motora não é preciso aquecer. Como incorpora muito ar, tem de repousar a frio”.

João Fernandes é aluno do curso de Cozinha e Pastelaria da Escola de Hotelaria de Lisboa. Quando interrogado sobre a razão que o leva a estar aqui, responde: “Tendo em conta que os quatro melhores restaurantes do Mundo utilizam os conhecimentos da Gastronomia Molecular aplicados à cozinha, parece-me importante vir adquirir tais conhecimentos. Por outro lado, este é o único instituto em Portugal a leccionar cursos nesta área”. Depois de ouvir as explicações, passa à acção. O objectivo é fazer pequenas esferas utilizando uma solução de sumo com xantano a 0,3 por cento e gluco a 2,5 por cento. Na Gastronomia Molecular a precisão nas proporções e nas quantidades é crucial. Quem a queira praticar, para além de ter uma balança de precisão, deverá ser bom a matemática. A famosa “regra de três simples” é utilizada todos os dias, pois só com ela se poderão manter as proporções.

Mas o interesse por esta “ciência” não passa só pelos profissionais de cozinha. Maria Leonor Souza é responsável pelas publicações culinárias da Unilever – Jerónimo Martins. O que a leva a frequentar este curso é o interesse por estes temas e o factor “novidade”: “É uma maneira diferente de abordar o acto de cozinhar e a combinação dos sabores e das texturas. É uma área que ainda está pouco explorada e que é muito interessante. O meu objectivo é entusiasmar as pessoas. Agora está a renascer um entusiasmo grande pela cozinha e cozinhar está na moda ”.

Continua, ela também, a seguir a receita. Feitas as esferas, deitam-se na solução de alginato, deixando repousar durante 3 minutos. Passado este tempo, o resultado está à vista: pequenas bolinhas de aspecto gelatinoso, assemelhando-se a gomas. Quando levadas à boca, rebentam, libertando o sumo. O efeito surpresa é plenamente alcançado. “É este o objectivo da Gastronomia Molecular: surpreender através da diferença nas texturas e da atractividade visual”, explica Margarida Guerreiro, acrescentando que “A novidade neste mundo globalizado em que podemos experimentar a gastronomia de países tão diversos como o Tibete ou o Brasil dentro da mesma cidade, já não está nos sabores. Ela surge da colaboração entre cozinheiros e cientistas que inventam novas texturas e introduzem novas cores”. Assim, para conseguir estes efeitos, novas técnicas e substâncias são utilizadas. O azoto líquido, por exemplo, serve para dar uma consistência mais cremosa aos gelados; a peelenzima consegue descascar um citrino sozinha e os transglutaminases dão para colar alimentos que tenham proteínas. Uma das professoras sugere “Experimentem juntar galinha com atum!”.

O medo dos “E”

Muitas destas substâncias são também designadas por “E”. Não se estarão a utilizar produtos prejudiciais à saúde? “Tudo o que é ingerido em demasia faz mal. Se comermos um quilo de amêndoas, não vamos de certeza passar bem, pois embora em quantidades muito pequenas, têm cianeto”, esclarece Catarina Prisca e Joana Moura acrescenta: “Muitas destas substâncias são extraídas da natureza e já utilizadas há muito tempo em países como, por exemplo, a China”. Margarida Guerreiro conclui, afirmando: “Os espessantes não são cancerígenos. Nada está provado. Há uma grande desinformação”.

História

A denominada “Gastronomia Molecular” começou quando um físico e um químico se juntaram para perceber os processos que ocorriam na cozinha. Estávamos em 1988 e o trabalho de Nicholas Kurti e Hervé This demonstrou que muito daquilo que fazemos com base na experiência pode ser descodificado pela ciência, tendo por base a composição dos alimentos e as alterações físicas e químicas que ocorrem durante a sua preparação. É de Nicholas Kurti (o físico húngaro) a célebre frase “É preocupante que se saiba mais sobre a temperatura no interior das estrelas do que sobre a temperatura no interior de um prato de soufflé”.

Dicionário de substâncias espessantes, gelificantes e estabilizantes:

Espessante: permite aumentar a viscosidade de um alimento.

Gelificante: confere textura através da formação de um gel.

Estabilizante: contribui para dar uniformidade ou consistência a preparados.

Hidrocolóides: são colóides (substância semelhante a cola) com uma especial atracção pela água e que, quando em contacto com esta, agarra-a como que “aprisionando-a”.

Metilcelulose: é um dos aditivos alimentares permitidos pela legislação comunitária e americana, designado por E 461. É produzida industrialmente a partir da celulose.

Xantano: é um dos aditivos alimentares permitidos pela legislação comunitária e americana, designado por E 415, sendo utilizado desde 1969. É um polissacárido (hidrato de carbono muito grande) produzido pela bactéria Xanthomonas Campestris, frequente em folhas de couve, couve-flor e brócolos.

Alginato: é uma das substâncias mais abundantes na natureza. É um polissacárido extraído de algumas algas castanhas Phaeophyceae, principalmente de espécies do género Laminária.

Mais Informação

Blogue “Jo Cooking”: http://www.jocooking.typepad.com

Site “Ciência Viva”: http://www.cienciaviva.pt

Instituto Superior de Agronomia

4.8.07

Perfil de Rui Horta, Coreógrafo - 3ª Parte



Em 1984 regressou a Portugal, porque tinha saudades, mas sobretudo porque lhe ofereceram a oportunidade de criar uma companhia de dança. Foi a Companhia de Dança de Lisboa. Tratava-se de um projecto de continuidade daquilo que eram as companhias de reportório. Era um projecto mais voltado para a dança moderna com alguma nova dança e dança contemporânea. Nela começaram a dançar pessoas como João Fiadeiro, Benvindo Fonseca e Clara Andermatt. “Era praticamente o único sítio onde se poderia fazer dança de uma forma mais profissional fora do Ballet Gulbenkian. Foi bonito nesse aspecto, mas foi limitado no ponto de vista estético. Não foi um projecto de ruptura”. Convidou um dos seus melhores amigos para fazer a direcção administrativa, José Manuel Oliveira, que nessa altura era fotógrafo, mas as coisas acabaram por não correr bem. “Houve uma situação um bocado desagradável, um processo um pouco “hamletiano”. Ficou ele com a companhia e eu fui posto na rua, o que foi fantástico para mim, agradeço-lhe profundamente”.

Foi nesta altura que surgiu outra das pessoas mais importantes no seu percurso, Carlos Andrade, marido de Vanda Ribeiro da Silva. “Foi um homem extraordinário comigo, apoiou-me”. Carlos Andrade, quadro intermédio num governo muito frágil, emprestou-lhe o seu dinheiro pessoal para lançar o Rui Horta & Friends. “Não havia Ministério da Cultura na altura, havia uma vaga Secretaria de Estado da Cultura, com uma direcção geral de acção cultural”. Aqui Fernando Alçada, director geral de acção cultural, também teve um papel importante, ao apostar no seu trabalho. “São estas coisas que nos fazem crescer”.

E Rui Horta cresceu. Os seis anos, entre 1984 e 1990, são caracterizados por uma grande vontade de passar conhecimento de tudo o que tinha aprendido em Nova Iorque a todas as pessoas que queriam dançar, “formei montes de gente e toquei uma geração inteira”. Nesta altura, tinha o estúdio nos Bombeiros Lisbonenses. Este estúdio foi um ponto de encontro de freelancers, livre para toda a gente. “Era o meu estúdio de dança. Toda a gente tinha a chave. Muita gente ensaiava”. Nomes como João Fiadeiro e Clara Andermatt passaram por lá, “às dez da noite iam para o estúdio e ensaiavam até à uma, duas da manhã. Porque era de todos”.

É então que o coreógrafo parte para a Alemanha, ali fica por dez anos e regressa para se instalar em Montemor-o-Novo. A relação de empatia com o Presidente da Câmara, Carlos Pinto Sá, foi fundamental. “Falámos meia hora e ele foi-me logo mostrar o convento. Ficou decidido ao fim de meia hora que eu ia ficar lá”. Ao fim de dois meses, Rui Horta já estava em Montemor com “armas e bagagens”. O primeiro outdoor que pôs do lado de fora do convento teve inscrita a frase “Estamos Cá”.

A relação de Rui Horta com a terra que o acolheu tem sido marcada por um trabalho muito próximo com várias instituições. Após seis anos, o Convento da Saudação, graças ao seu trabalho, está parcialmente recuperado e as negociações com o governo para a recuperação deste, que é o maior convento do sul de Portugal, estão a decorrer. A proximidade com o tecido escolar também tem sido uma aposta.

Mas, para lá deste trabalho sociocultural, há o trabalho que é realizado no centro coreográfico “Espaço do Tempo”. Ali recebe anualmente 36 equipas criativas, que se traduzem em mais de 700 artistas. “Pessoas emergentes. Quando recebemos um pedido, vamos ver a companhia in locco ou vemos em vídeo. É um trabalho muito intenso. No fim de contas, quem tem de escolher, tem de estar informado. Essa é a parte mais dura, mais difícil”.

Quando olha para trás custa-lhe a acreditar que já tivessem passado trinta anos. Foram milhares e milhares de horas a trabalhar com pessoas, em que conheceu o mundo inteiro. Existiram momentos de grande solidão. “Sozinho no meio de uma grande cidade”. Mas também existiram momentos de enorme sucesso em cidades do outro lado do planeta, como Tóquio e Xangai. “São 30 anos que já são para mim duas vidas, ou três. Hoje já podia ir-me embora, porque já fiz tudo o que tinha para fazer, não preciso fazer mais”.

No entanto, o arquitecto, bailarino, professor, coreógrafo e pai tem cinquenta anos e continua a receber convites para sair de Portugal. “É muito tentador, mas não vejo os meus filhos a mudarem para outro país. Se eu não tivesse crianças, talvez”. Os seus filhos vivem e estudam em Montemor. “Vai tudo à escola em Montemor. À escola pública, à saúde pública. Eu sou uma pessoa que acredita nos serviços públicos. As pessoas têm que pagar impostos, mas têm que exigir dos governantes”. Esta educação que dá aos filhos é muito diferente da que ele próprio e os seus sete irmãos receberam. O pai foi professor catedrático da Faculdade de Medicina. “Foi um médico bastante conhecido em Portugal, foi bastonário da ordem dos médicos. Foi director de um hospital”. A mãe também foi professora universitária, doutorada em anatomia patológica.

O filho “do meio da tabela” viveu a sua infância e adolescência nas Avenidas Novas, em Lisboa, mais precisamente na esquina da Av. Defensores de Chaves com a Av. Miguel Bombarda. Foi aluno da turma B do Camões, da qual saiu também António Guterres. “Venho de uma família com um nível intelectual muito grande. Os meus pais, apesar de terem profissões muito técnicas, eram pessoas intelectualmente muito diferenciadas. Tenho uma irmã, a Maria Teresa Horta, que é poetisa e tenho um irmão que é de História. Há de tudo na minha família”. Dos seus ex-colegas do Liceu Camões ainda mantém contacto com alguns, entre eles, António Carrapatoso, actual presidente da Vodafone. “É um homem muito inteligente, com quem é bom conversar”.

Teve uma infância feliz, embora a considere um pouco formatada. “Foi uma educação da burguesia intelectual portuguesa, com umas referências um pouco britânicas, como compete à própria burguesia portuguesa”. Da parte do pai teve uma influência muito grande da literatura francesa. “O meu pai lia muito Simone de Beauvoir, Saint-Exupéry, Sartre, Balzac, toda aquela literatura de referência francesa que andava sempre ali por cima do escritório e que eu li muito cedo”. Cedo começou a assinar o L’Avant Scène, onde viu as primeiras “figurinhas” de espectáculos, com fotografias, textos teatrais, que lia em francês. “Na prática fui um privilegiado. Tive acesso, desde muito cedo, a estas experiências fortíssimas”. No Verão, como contra-ponto a esta educação um pouco mais formal no Inverno, eram, ele e os irmãos, deixados à solta numa praia do sul durante muitos meses com uma tia já mais velha. “Libertou-nos de algumas tensões de formatação. Equilibrou a balança. Foi um tempo absolutamente maravilhoso, de selvajaria, de possibilidade de conhecer tudo e mais alguma coisa”.

Hoje pensa que poderá não estar a dar aos filhos aquilo que os seus pais lhe deram. “É uma grande incógnita para mim. Tenho dúvidas se estou a fazer bem”. Por outro lado dá-lhes muitas outras coisas. “Temos tempo para eles. O meu pai não estava tão perto de mim, como eu estou dos meus filhos. Faço os trabalhos de casa com eles e vamos dar passeios no campo. Andamos de bicicleta. Falamos imenso. Todas as noites lhes conto uma história e há uma grande proximidade na família”.

Rui Horta, para lá de coreógrafo, é um criador e considera o que faz um trabalho de auto-destruição. “Eu nunca estou contente. Mas eu também sou assim. Mesmo quando estou calmo, nunca estou sereno”. Se tivesse de escolher os trabalhos mais representativos destes trinta anos, Rui Horta escolheria a primeira obra que foi fazer para a Alemanha, “Linha” (uma das obras de ruptura. Em 1989). Depois optaria pela obra que o tornou conhecido mundialmente, “Objecto Constante”, em 1994. Há também uma “obra maldita”, mas que adora, “Khora”. “É o nome de um livro do Jacques Derrida, que eu gosto imenso e que deu origem a uma obra negra minha, mas que é talvez uma das minhas melhores obras, em 1997”. E, finalmente, a obra que considera ser a mais forte, “Pixel”. “O Pixel aparentemente marcou muita gente. Continua a ser uma obra muito pedida, muito pretendida. Há coisas assim misteriosas. Não custou nada a fazer. Fiz isto num mês e meio. As coisas que eu tenho feito de mais interessantes não têm custado. Às vezes quando a gente se envolve imenso com as coisas, custa que se farta”.

Para o criador Rui Horta há de facto um processo de criação que é quase como um processo de incubação de uma doença viral. “Apanhas uma infecção qualquer. Sem saber o que tens ainda, começas a ter dores no corpo. Tens sintomas, mas não sabes ainda qual é o diagnóstico”. Para ele, a criação é isto. Começa com os seus livros de cabeceira. Dantes, tinha, por exemplo, os do Rem Koolhaas, prémio nobel da arquitectura (Pritzker) e o “Delirious New York”. Depois passou a ter o “Small Medium Large x-Large”. “A gente vai lendo. Ao fim de seis meses, apercebes-te que já tens a obra mais ou menos, mas que estás a ficar tenso. Aquilo é uma coisa que te afecta”. Depois vem a fase de decidir efectivamente fazer a obra “x”, em que se pede o dinheiro. É aqui que o criador põe tudo no papel. E depois vem a concretização. “Quando vais para o estúdio fazer a obra é a terapia. Depois da incubação, depois do diagnóstico, vem a terapia para te curar”. E, por fim, a estreia. “O momento da estreia é o momento em que estás curado. Estás curado, acabou, tiraste aquilo do sistema. A criação é mesmo daquelas coisas que é criar ou morrer”. E, ao sétimo dia, descansa, fica muito tranquilo, um bocado apático durante uns tempos, porque ficou curado. E depois começa a vir outra incubação, mais um vírus, mais um vírus…

Inês Branco, Julho de 2007

1ª Parte

2ª Parte

2.8.07

Perfil de Rui Horta, Coreógrafo - 2ª Parte


Pixel


Dos dez anos de Alemanha, houve uma nova crise em 1997. Mas houve também a criação de outra companhia, o Rui Horta Stageworks, que ainda existe hoje e com a qual assina, para diferenciar do Espaço do Tempo, o espaço multifuncional criado em Montemor. Chama-se Stageworks, porque com esta companhia não faz apenas dança. Faz instalação, artes plásticas, multimédia, teatro, ópera e artes de palco. Os anos em que esteve na moda passaram. O Thèâtre de la Ville foi seu co-produtor. “É o teatro mais importante em toda a Europa, talvez em todo o mundo. É o teatro mais importante em todo o mundo e eu fui co-produzido pelo Thèâtre de la Ville durante seis anos, entre 93 e 99. Ganhei em 92 o concurso Bagnolet, que é uma espécie de Óscares da dança.”

Para Rui Horta os prémios significaram sempre uma surpresa muito grande. “Quando eu ganho Bagnolet nem acredito. Depois é que me apercebi que havia 400 coreógrafos e eu ganhei. 400 coreógrafos do mundo inteiro e tu não percebes. Nem chegas a perceber. Ganhaste, pronto! No dia seguinte vais a casa dos teus amigos ou vais jantar fora”. A surpresa foi ainda maior talvez porque não foi Rui Horta a candidatar-se ao prémio. Foi um conjunto de catorze teatros alemães que se juntou e que o candidatou a representante alemão em 1991. Rui Horta só soube quando recebeu uma carta com o pedido de autorização. Ainda em Portugal, em 1989, tinha-se candidatado com o “Interiores”, uma obra de que gosta muito, e nem sequer chegou a passar a primeira eliminatória de escolha. “Por aqui se vê que quando a gente quer uma coisa, não tem nada, quando a gente não quer nada tem uma coisa. A vida é uma coisa misteriosa”.

Para Rui Horta não existe óptica de carreira na profissão. Há um percurso. “Todos os dias levantas-te e fazes aquilo que sabes e gostas. Cada dia é um dia novo, é um dia ‘jubilatório’”. Agora, que está mais velho, acontece-lhe mais frequentemente levantar-se de manhã e dizer “Que bom, tou vivo. Vou fazer o que me apetece durante o dia. Tenho umas coisas chatas para fazer pelo meio, mas vou fazer deste dia um dia bestial”.

Se lhe perguntar quem foram as pessoas mais marcantes neste seu percurso, Rui Horta tem-nas bem presentes. A primeira foi uma professora muito importante na sua vida, Vanda Ribeiro da Silva, que lhe ensinou os primeiros passos da dança clássica na Fundação Gulbenkian. “Eu tinha 16 anos e caiu o fascismo. Foi uma coisa extraordinária, libertaram-se imensas tensões sociais e eu libertei o meu corpo também.” Noutra conjuntura talvez tivesse sido arquitecto. Na prática, acabou por ser um coreógrafo. Antes disto, após ter frequentado os cursos pré-profissionais, percebeu que não iria dançar no Ballet Gulbenkian. “Não tinha aquele corpo perfeito de bailarino clássico, que naquela altura era muito importante”.

Na alma ainda continua arquitecto. “Eu faço arquitectura com o “Corpus”, eu crio luz, eu crio cenografias. Vês o meu palco? É um palco de arquitectura. Não tem nada a ver com abrir a cortina e fazer uma dança. Eu sempre trabalhei com linguagens cénicas, com linguagens espaciais”.

O 25 de Abril abriu-lhe horizontes extraordinários, ficou fascinado com a liberdade, com as possibilidades de viajar. Foi aqui que surgiu Maria Ângela de Sousa, uma pessoa que foi um instrumento fundamental na sua vida. Cientista e imunologista, vivia nessa altura em Nova Iorque. Quando a mãe de Rui Horta faleceu, em 1978, com apenas 21 anos, Maria Ângela pôs-lhe a chave de sua casa nas mãos e ele foi para Nova Iorque. Pensou em ficar três meses, mas acabou por ficar seis anos. “Foi um tempo fantástico. Tudo é possível. Tive 40 mil empregos. Era filho de professores catedráticos e entreguei pizzas ao domicílio, fiz limpezas de apartamentos, dei aulas nos sítios mais escabrosos, trabalhei como garçon num restaurante. Fiz todos os trabalhos e mais alguns e, a certa altura, comecei a ser reconhecido como professor”. De facto, Rui Horta foi para os Estados Unidos para dançar, mas nos últimos anos era já um professor de referência em Nova Iorque, “talvez um dos professores mais importantes de dança moderna em Nova Iorque”.

Foi também em Nova Iorque que conheceu a sua mulher, actualmente ex-mulher, “minha grande companheira, minha grande amiga. Foi durante 15 anos minha mulher, da qual tenho 3 filhos maravilhosos”. Esta era psico-terapeuta, mas tinha uma formação de bailarina. Nessa altura dançava e foi a Nova Iorque nas férias de Verão para fazer uma “reciclagem”. Rui Horta tinha pessoas do mundo inteiro a trabalhar consigo, “conheci muita gente e conheci-a a ela”.

Este percurso profissional como professor vai desde 1982/83 até 1989/90. “Nunca diria a ninguém que sou bom coreógrafo. Mas se me perguntarem se sou um bom pedagogo, eu sou um excelente professor. Fui um excelente professor e formei bailarinos muito bons, tanto cá, como nos Estados Unidos”. Rui Horta gosta de passar conhecimento, mas gosta mais ainda de criar obras de dança. Após o regresso dos Estados Unidos, em 1991/92/93 foi professor convidado no Laban Centre em Londres, no Conservatório de Paris, no Conservatório de Lyon e na Rotherdam Dance Academy. Mas, pouco a pouco, o ensino passou a interessar-lhe menos. Estava cada vez mais fascinado pela coreografia. “A partir do final dos anos 80, princípios dos anos 90, a coreografia tomou a dianteira das minhas preocupações e eu comecei a desaparecer como professor. Aquilo não era prioritário para mim”.

1ª Parte

3ª Parte

29.7.07

Perfil de Rui Horta, Coreógrafo - 1ª Parte



Quando tudo, de repente, acontece

Mesmo quando está calmo, nunca está sereno. Rui Horta é um coreógrafo alfacinha que já viu as suas obras percorrerem o mundo inteiro. Este ano comemora cinquenta anos de vida e trinta de percurso profissional.

Sentado numa das cadeiras da plateia do Teatro Camões, fala com uma das assistentes, enquanto toda a sua equipa continua a trabalhar. Ninguém os interrompe. “Esta é uma das formas de conseguir ter tempo. Eu escolho as pessoas, formo-as e confio no trabalho delas. É preciso saber delegar”. Alto, conserva ainda o corpo magro e bem esculpido, que lhe permitirá, se um dia quiser, voltar a dançar. “Como bailarino deixei de dançar relativamente cedo, danço muito bem. Ainda hoje as pessoas perguntam por que é que não danço. E devo dizer que hoje, neste momento, com 50 anos tenho imensa vontade de fazer um solo para mim, para eu dançar”. Por enquanto, continua do outro lado, dirigindo bailarinos e criando espectáculos. Em pleno palco uma grande estrutura em barras de ferro está a ser montada. Dali a dois dias tudo tem de estar em ordem para a estreia de Pixel, um dos espectáculos mais emblemáticos do coreógrafo Rui Horta.

São três da tarde e o tempo não pára. Por volta das quatro, o táxi estará à sua espera para o levar de regresso a casa. É assim que Rui Horta gere o tempo, ao minuto. “Consigo fazer muita coisa, mas para isso é preciso organização, uma agenda”. Montemor-o-Novo foi a terra que escolheu para viver, aquando do regresso a Portugal, no ano 2000. “Quando vim para Portugal, queria vir para o Sul. Eu sou um homem do Sul, estava farto de Invernos frios, com temperaturas abaixo de zero”. Na altura, a renovação da rede de cineteatros ainda não tinha começado. Se fosse hoje, talvez ele tivesse escolhido um teatro que já existisse, no Sul ou no Norte. Montemor, no mapa, pareceu-lhe muito bom. Não era muito longe de Lisboa. Mas os grandes impulsionadores da mudança foram duas pessoas do Ministério da Cultura, Gil Mendo e Ana Marim, que o informaram da existência de um Presidente de Câmara em Montemor-o-Novo muito interessado na cultura. Disseram-lhe também que Montemor era uma cidade muito bonita, pequena e com um convento a cair, um teatro a cair e que, portanto, ele poderia fazer a diferença. Rui desceu ao sul e constatou com os seus olhos o que os outros lhe haviam dito. “Eu aqui sou um tipo que posso chamar a atenção justamente com o prestígio e com a pedalada que tenho. Vou tentar renovar estes dois equipamentos, vou tentar empurrar esta agenda, vou tentar avançar e vou viver aqui.”

É com o nascimento do terceiro filho que Rui Horta decide deixar a Alemanha e regressar, em definitivo, a Portugal. Para ele as grandes decisões da vida não são decisões estratégicas, mas sim intuitivas. “Tenho o meu terceiro filho e penso que se calhar é mais interessante eles saberem quem é o Dom Diniz, do que quem é o Bismarck.”

Este regresso dá-se após dez anos de vida na Alemanha, os primeiros sete em Frankfurt e os últimos três em Munique. É para aquele país que vai, após um ano de crise entre 1988 e 1989, tinha então 32 anos. “Entre sair da Companhia de Dança de Lisboa e fazer o meu projecto de autor (Rui Horta & Friends) eu tenho aquilo que acontece quando se tem uma relação com uma pessoa durante muitos anos. Ninguém salta de uma relação para outra. Tem-se ali um período de luto. É o ano em que nada acontece na minha vida profissional, mas é talvez o mais importante”. Apenas deu aulas para sobreviver e não foi ver espectáculos. Todos os dias ia para o estúdio com o seu gato Flash, um gato preto apanhado na rua. “Passei um ano sozinho a viver algo para dentro, meu, e a questionar todo o meu passado. A tentar esquecer tudo o que tinha aprendido para partir de bases novas. Foi muito bom. É aquilo que eu aconselho a muita gente. É ter uma grande crise na altura em que eu a tive.”

Na realidade, Rui Horta não esteve parado. Quando saiu da Companhia de Dança de Lisboa, em 1988, decidiu fazer o que apelidou de “projecto de ruptura”, o Rui Horta & Friends. Madalena Azeredo Perdigão, uma das pessoas mais icónicas na sua vida, convidou-o dois anos seguidos para criar no Acarte (Gulbenkian). “E eu crio no Acarte uma peça chamada “Linha”. Nessa peça dançam algumas das pessoas mais emblemáticas da dança portuguesa, a Carlota Lagido, o Francisco Camacho, o Paulo Ribeiro e a Clara Andermatt. No ano seguinte, em 1990, faço outra obra chamada “Interiores.” Mas foi uma professora da escola onde estava, que viu estes dois espectáculos, e que levou uma cassete sua para a Alemanha. “Essa cassete aterra na secretária do Dieter Buroch. Isto muda a minha vida.”

De repente, Rui Horta estava na Alemanha, no teatro mais importante, o Kunstlerhaus Mousonturm, cujo director é Dieter Buroch. “Vou para lá como convidado para criar uma obra, depois ele convida-me para ficar a dirigir uma companhia, o Soap.” Para Rui Horta esta foi uma grande experiência. “De repente explodi como coreógrafo”. Talvez ele tivesse alguma coisa de novo para dar, numa altura em que a grande referência era (e continua a ser) Pina Bausch e Forsyth. “Acho que o meu trabalho tem uma frescura muito grande. Dentro da contemporaneidade eu sou de facto a grande referência nos anos 90, na Alemanha, em termos de dança contemporânea. Entre 1991 e 1995 eu sou fundamentalmente um produto de exportação do Instituto Alemão, do Goethe Institute”. Fez cerca de 800 espectáculos em cerca de 8 anos, no mundo inteiro. Do Japão a África. Do Brasil à Rússia, que tinha acabado de se abrir ao Ocidente. “Estás um mês no Canadá ou estás a dançar no Joyce Theatre em Londres ou no Spirehall em Tóquio. Foi uma coisa absolutamente extraordinária para um miúdo, que era um português, um alfacinha, que de repente chegou e que nunca pensou que tivesse esse talento.”

Em 1997, mudou-se para Munique, três anos antes do regresso a Portugal. Frankfurt não era uma boa cidade para se ter crianças e Munique, cidade do Sul da Baviera, para além de ser muito bonita, tinha a vantagem de estar perto do sítio onde moravam os sogros. A família tornou-se importante, após muitos anos de profissão. “De repente as crianças são a coisa mais importante da minha vida. De facto, o amor é a coisa mais importante das nossas vidas. Apesar de eu ter uma profissão excitante, os afectos são mais importantes”. E foi por esta razão que se aproximou de onde estavam os seus laços familiares. No entanto, em termos profissionais Munique não lhe oferecia o mesmo que Frankfurt. “Foram dois anos ainda muito bons para mim na Alemanha, mas foram já anos em que eu sentia vontade de voltar a Portugal”.

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